                Coleo de Autores Modernos
                            da
              LITERATURA LUSO-BRASILEIRA

                         (POESIA)


POETAS DE SEMPRE

1. LUZ MEDITERRNEA -- Raul de Leoni
2. EU E OUTRAS POESIAS -- Augusto dos Anjos
3. POEMAS OCULTISTAS -- Fernando Pessoa
 POEMAS
OCULTISTAS
                    Coleo de Autores Modernos
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                               (POESIA)




                                  3.


                              Capa
                         CLUDIO MARTINS




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   TBUA DOS POEMAS
                            Iniciao    11
                                Natal    12
                       Eros e Psique     13
                              Abismo     16
                      Passos da Cruz     17
         Sonetos, VI, X, XI, XIII, XIV   18
                   Meu pensamento        23
                             Em Mim      25
                Monlogo da Noite        30
               Monlogo das Trevas       31
                              Gldio     33
                 Ode (Ricardo Reis)      36
              "Meditao Fustica"       37
No Tmulo de Christian Rosencreulz       39
                O ltimo Sortilgio      43
                         Gomes Leal      45
                       O Encoberto       46
                   "Sombra Amada"        47
                             A Morte     50
   Demogorgon (lvaro de Campos)         51
      Hino a P (Aleister Crowley)       52

Sbita mo de algum fantasma oculto      15
           Grandes mistrios habitam     22
            J esto em mim exaustas     26
 No meu, no meu  quanto escrevo       27
        Ah, tudo  smbolo e analogia    28
      Do eterno erro na eterna viagem    29
        naus felizes, que do mar vago   32
            Nos vastos cus estrelados   34
 O segredo da Busca  que no se acha    35
     Neste Mundo em que esquecemos       42

                                          7
                  INICIAO
No dormes sob os ciprestes,
Pois no h sono no mundo.

O corpo  a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que  a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite s recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Ento Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
No tens vestes, no tens nada:
Tens s teu corpo, que s tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais:
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vs que so teus iguais.

A sombra das tuas vestes
Ficou entre ns na Sorte.
No 'sts morto, entre ciprestes.

Nefito, no h morte.

Presena, n 35, Maio, 1932.


                                    11
                          NATAL
     Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
     Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
     Temos agora uma outra Eternidade,
     E era sempre melhor o que passou.

     Cega, a Cincia a intil gleba lavra.
     Louca, a F vive o sonho do seu culto.
     Um novo Deus  s uma palavra.
     No procures nem creias: tudo  oculto.

     Contempornea, n" 6, Dez. 1922.




12
                EROS E PSIQUE
... E assim vedes, meu Irmo, que as verdades que vos foram dadas
no Grau de Nefito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de
adepto Menor, so, ainda que opostas, a mesma verdade.


                        Do Ritual do grau de Mestre do trio
                        Na Ordem templria de Portugal


 Conta a lenda que dormia
   Uma Princesa encantada
 A quem s despertaria
 Um Infante, que viria
 De alm do muro da estrada.

       Ele tinha que, tentado,
       Vencer o mal e o bem,
       Antes que, j libertado,
       Deixasse o caminho errado
       Por o que  Princesa vem.

 A Princesa Adormecida,
 Se espera, dormindo espera.
 Sonha em morte a sua vida,
 E orna-lhe a fronte esquecida,
 Verde, uma grinalda de hera.

       Longe o Infante, esforado,
       Sem saber que intuito tem,
       Rompe o caminho fadado,
       Ele dela  ignorado,
       Ela para ele  ningum.


                                                                    13
     Mas cada um cumpre o Destino --
     Ela dormindo encantada,
     Ele buscando-a sem tino
     Pelo processo divino
     Que faz existir a estrada.

           E, se bem que seja obscuro
           Tudo pela estrada fora,
           E falso, ele vem seguro,
           E, vencendo estrada e muro,
           Chega onde em sono ela mora.

     E, inda tonto do que houvera,
     A cabea, em maresia,
     Ergue a mo, e encontra hera,
     E v que ele mesmo era
     A Princesa que dormia.

     Presena, n. os 41-42, Maio, 1934




14
Sbita mo de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite no enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no corao, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mo noturna que me guia.

Sinto que sou ningum salvo uma sombra
De um vulto que no vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.

                                      14-3-1917

O. C., l v., Poesias, p. 83.




                                                  15
                        ABISMO
     Olho o Tejo, e de tal arte
     Que me esquece olhar olhando,
     E sbito isto me bate
     De encontro ao devaneando --
     O que  ser-rio, e correr?
     O que  est-lo eu a ver?

          Sinto de repente pouco,
          Vcuo, o momento, o lugar.
          Tudo de repente  oco --
          Mesmo o meu estar a pensar.
          Tudo -- eu e o mundo em redor --
          Fica mais que exterior.

     Perde tudo o ser, ficar.
     E do pensar se me some.
     Fico sem poder ligar
     Ser, idia, alma de nome
     A mim,  terra e aos cus.

          E sbito encontro Deus.

                                     1913 (?)

     Do ciclo "Alm-Deus"
     Orpheu, 3 (indito).




16
            PASSOS DA CRUZ
                      Soneto VI

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu atual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, no Boabdil.
Mas o seu mero ltimo olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...

Hoje sou a saudade imperial
Do que j na distncia de mim vi...
Eu prprio sou aquilo que perdi...

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glria marginal
Os girassis do imprio que morri...

Centauro, n 1, Out. - Dez. 1916.




                                          17
                PASSOS DA CRUZ
                          Soneto X

     Aconteceu-me do alto do infinito
     Esta vida. Atravs de nevoeiros,
     Do meu prprio ermo ser fumos primeiros,
     Vim ganhando, e atravs estranhos ritos

     De sombra e luz ocasional, e gritos
     Vagos ao longe, e assomos passageiros
     De saudade incgnita, luzeiros
     De divino, este ser fosco e proscrito...

     Caiu chuva em passados que fui eu.
     Houve plancies de cu baixo e neve
     Nalguma coisa de alma do que  meu.

     Narrei-me  sombra e no me achei sentido
     Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
     Outrora a sua capital de olvido...

     Centauro, nl, Out-Dez. 1916.




18
            PASSOS DA CRUZ
                     Soneto XI

No sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mo colora algum em mim.
Pus a alma no nexo de perd-la
E o meu princpio floresceu em Fim.

Que importa o tdio que dentro em mim gela,
E o leve outono, e as galas, e o marfim,
E a congruncia da alma que se vela
Com os sonhados plios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma  um arco tendo ao fundo o mar...
O tdio? A mgoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do vo comeado
Pestaneja no campo abandonado...

Centauro, n"l, Out.-Dez. 1916.




                                           19
                 PASSOS DA CRUZ
                          Soneto XIII

     Emissrio de um rei desconhecido,
     Eu cumpro informes instrues de alm,
     E as bruscas frases que aos meus lbios vm
     Soam-me a um outro e anmalo sentido...

     Inconscientemente me divido
     Entre mim e a misso que o meu ser tem,
     E a glria do meu Rei d-me o desdm
     Por este humano povo entre quem lido...

     No sei se existe o Rei que me mandou.
     Minha misso ser eu a esquecer,
     Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

     Mas h! Eu sinto-me altas tradies
     De antes de tempo e espao e vida e ser...
     J viram Deus as minhas sensaes...

     Centauro, n 1, Out.-Dez., 1916.




20
            PASSOS DA CRUZ
                   SONETO XIV

Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vos olhares
Se admiraram), p'ra alm dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tdio nasce

Parou... Apareceu j sem disfarce
De msica longnqua, asas nos ares,
O mistrio silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...

A paisagem longnqua s existe
Para haver nela um silncio em descida
P'ra o mistrio, silncio a que a hora assiste...

E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde h a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...

Centauro, n l, Out.-Dez. 1916.




                                                21
     Grandes mistrios habitam
     O limiar do meu ser,
     O limiar onde hesitam
     Grandes pssaros que fitam
     Meu transpor tardo de os ver.

     So aves cheias de abismo,
     Como nos sonhos as h.
     Hesito se sondo e cismo,
     E  minha alma  cataclismo
     O limiar onde est.

     Ento desperto do sonho
     E sou alegre da luz,
     Inda que em dia tristonho;
     Porque o limiar  medonho
     E todo passo  uma cruz.

                                     2-10-1933

     O. C., 1 V, Poesias, p. 191.




22
       MEU PENSAMENTO
Meu pensamento  um rio subterrneo.
Para que terras vai e donde vem?
No sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um rudo subitneo

De origens no Mistrio extraviadas
De eu compreend-las..., misteriosas fontes
Habitando a distncia de ermos montes
Onde os momentos so a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mgoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um plido soluo de gua...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha conscincia da iluso
guas divinas percorrendo o cho
De verdores unssonos e amigos,

E a idia de uma Ptria anterior
A forma consciente do meu ser
Di-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro  minha dor.

Escuto-o... Ao longe, no meu vago tato
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a idia de rio certo e abstrato...

                                              23
     E p'ra onde  que ele vai, que se extravia
     Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce?
     Em que frios de Assombro  que arrefece?
     De que nvoas soturnas se anuvia?

     No sei... Eu perco-o... E outra vez regressa
     A luz e a cor do mundo claro e atual,
     E na interior distncia do meu Real
     Como se a alma acabasse, o rio cessa...

                                            1914(?)

     Cartas de F. P. a A. C. - R., p. 60.




24
                     EM MIM
Paro  beira de mim e me debruo...
Abismo... E nesse abismo o Universo,
Com seu tempo e seu 'spao,  um astro, e nesse
Alguns h, outros universos, outras
Formas do Ser com outros tempos, 'spaos
E outras vidas diversas desta vida...

O esprito  outra estrela... O Deus pensvel
 um sol... E h mais Deuses, mais 'spritos
De outras essncias de Realidade...

E eu precipito-me no abismo, e fico
Em mim... E nunca deso... E fecho os olhos
E sonho -- e acordo para a Natureza...
Assim eu volto a mim e  Vida...

Deus a si prprio no se compreende.
Sua origem  mais divina que ele,
E ele no tem a origem que as palavras
Pensam fazer pensar...

O abstrato Ser [em sua] abstrata idia

Apagou-se, e eu fiquei na noite eterna.
Eu e o Mistrio -- face a face...

                                 6-11-1912

Primeiro Fausto,
O. C.,VI v., 1952, p. 83.


                                                25
     J esto em mim exaustas,
     Deixando-me transido de terror,
     Todas as formas de pensar [...]
     O enigma do universo. J cheguei
     A conceber, como requinte extremo
     Da exausta inteligncia, que era Deus...

     J cheguei a aceitar como verdade
     O que nos do por ela, e a admitir
     Uma realidade no real
     Mas no sonhada, [como o] Deus Cristo.

     ... Falhados pensamentos e sistemas
     Que, por falharem, s mais negro fazem
     O poder horroroso que os transcende
     A todos, [sim,] a todos.
     Oh horror! Oh mistrio! Oh existncia!


     Primeiro Fausto.
     O. C., VI v., 1952, p. 78.




26
No meu, no meu  quanto escrevo.
           A quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
           Porque, enganado
Julguei ser meu o que era meu?
           Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
           For eu ser morte
De uma outra vida que em mim vive,
           Eu, o que estive
Em iluso toda esta vida
          Aparecida,
Sou grato Ao que do p que sou
           Me levantou.
(E me fez nuvem um momento
           De pensamento).
(Ao de quem sou, erguido p,
           Smbolo s.)

                                9-11-1932

O. C., I v., Poesias, p. 152.




                                            27
     Ah, tudo  smbolo e analogia!
     O vento que passa, a noite que esfria,
     So outra coisa que a noite e o vento --
     Sombras de vida e de pensamento.

     Tudo o que vemos  outra coisa.
     A mar vasta, a mar ansiosa,
     E o eco da outra mar que est
     Onde  real o mundo que h.

     Tudo o que temos  esquecimento.
     A noite fria, o passar do vento,
     So sombras de mos, cujos gestos so
     A realidade desta iluso.

     Primeiro Fausto.
     O. C., VI v., 1952, p. 76.




28
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que [exprime] na alma que ousa,
E sempre nome, sempre linguagem,
O vu e capa de uma outra cousa.

Nem que conheas de frente o Deus,
Nem que o Eterno te d a mo,
Vs a verdade, rompes os vus,
Tens mais caminho que a solido.

Todos os astros, inda os que brilham
No cu sem fundo do mundo interno,
So s caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.

Volta a meu seio, que no conhece
Os deuses, porque os no v,
Volta a meus braos, melhor esquece.
Que tudo s fingir que .

Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 80.




                                         29
          MONLOGO NA NOITE
     Sou a Conscincia em dio ao inconsciente,
     Sou um smbolo incarnado em dor e dio,
     Pedao de alma de possvel Deus
     Arremessado para o mundo
     Com a saudade pvida da ptria...


      sistema mentido do universo,
     Estrelas nadas, sis irreais,
     Oh, com que dio carnal e estonteante
     Meu ser de desterrado vos odeia!
     Eu sou o inferno. Sou o Cristo negro,
     Pregado na cruz gnea de mim mesmo.
     Sou o saber que ignora,
     Sua a insnia da dor e do pensar...


     Primeiro Fausto.
     O. C., VI v., 1952, p. 86.




30
   MONLOGO NAS TREVAS
A qualquer modo todo escurido
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que no cr, nem ama -- o que s sabe
O mistrio tornado carne --.

H um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconscienciando-me
Para humano; sou mais real que o mundo.
Por isso odeio-lhe a existncia enorme,
O seu amontoar de coisas vistas.
Como um santo devoto
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E que no sei sentir que sou, conhece-o
Por no real e no ali.
Por isso odeio-o --
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!

Primeiro Fausto
O. C., VI v., 1952, p. 85.




                                          31
      naus felizes, que do mar vago
     Volveis enfim ao silncio do porto
     Depois de tanto noturno mal --
     Meu corao  um morto lago,
     E  margem triste do lago morto
     Sonha um castelo medieval...

     E nesse, onde sonha, castelo triste,
     Nem sabe saber a, de mos formosas
     Sem gesto ou cor, triste castel
     Que um porto alm rumoroso existe,
     Donde as naus negras e silenciosas
     Se partem quando  no mar manh...

     Nem sequer sabe que h o, onde sonha,
     Castelo triste... Seu 'sprito monge
     Para nada externo  perto e real...
     E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
     Regressam, velas no mar ao longe,
     As naus ao porto medieval...

     O. C., I v., Poesias, p. 208.




32
                     GLDIO
                            Do Alberto Da Cunha Dias

Deus-me Deus o seu gldio, porque eu faa
    A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em gnio e em desgraa,
As horas em que um frio vento passa
    Por sobre a fria terra.

Ps-me as mos sobre o ombros, e doirou-me
    A fronte com o olhar;
E esta febre de Alm, que me consome,
E este querer-justia so Seu nome
    Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gldio erguido d
    Em minha face calma.
Cheio de Deus, no temo o que vir,
Pois venha, o que vier, nunca ser
    Maior do que a minha alma!

                                       21-7-1913

Ataca, n 3, 1934, p. 81.




                                                       33
     Nos vastos cus estrelados
     Que esto alm da razo,
     Sob a regncia de fados
     Que ningum sabe o que so,
     H sistemas infinitos,
     Sis, centros de mundos seus,

     E cada sol  um Deus.

     Eternamente excludos
     Uns dos outros, cada um
     E universo.

     Primeiro Fausto.
     O. C.,VI v., 1952, p. 77.




34
O segredo da Busca  que no se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inteis; Sis, Deuses, Deus dos Deuses
Neles intercalados e perdidos
Nem a ns encontramos no infinito.
Tudo  sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e Deuses; essa, a luz incerta
           Da suprema verdade.

Primeiro Fausto.
O. C., VI v., 1952, p. 79.




                                            35
                              ODE
     Anjos ou deuses, sempre ns tivemos,
     A viso perturbada de que acima
          De ns e compelindo-nos
         Agem outras presenas.

     Como acima dos gados que h nos campos
     O nosso esforo, que eles no compreendem,
        Os coage e obriga
        E eles no nos percebem.

     Nossa vontade e o nosso pensamento
     So as mos pelas quais outros nos guiam
         Para onde eles querem
         E ns no desejamos.

                                       16-10-1914

                                       Ricardo Reis

     O. C, 4 o V, Odes, 1945, p. 54.




36
   "MEDITAO FUSTICA"
Ondas de aspirao [...]
Sem mesmo o corao e alma atingir
Do nosso sentimento; ondas de pranto,
No vos posso chorar, e em mim subis,
Mar imensa, numerosa e surda,
Para morrer da praia no limite
Que a vida impe ao Ser; ondas saudosas
De algum mar alto aonde a praia seja
Um sonho intil, ou de alguma terra
Desconhecida mais que o eterno [amor]
De eterno sofrimento, e aonde formas
Dos olhos de alma no imaginadas
          Vogam, essncias [...]
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiros, lgrimas, desolao;
[Ondas] nas quais no posso visionar
Nem dentro em mim, em sonho, [barco] ou ilha,
Nem esperana transitria, nem
Iluso nada da desiluso;
Oh, ondas sem brancura nem asperezas,

Mas redondas, como leos, e silentes
No vosso intrmino e total rumor --
Oh, ondas da alma, deca em lago
Ou levantai-vos speras e brancas
Com o sussurro cido da esperana...
Erguei em tempestades a minha alma!




                                          37
     ... No haver,
     Alm da morte e da imortalidade,
     Qualquer coisa maior? Ah, deve haver
     Alm da vida e morte, ser, no ser,
     Um inominvel supertranscendente,
     Eterno incgnito e incognoscvel!
     Deus? Nojo. Cu, Inferno? Nojo, nojo.
     P'ra que pensar, se h de parar aqui
     O curto vo do entendimento?
     Mais alm! Pensamento, mais alm!

     Primeiro Fausto.
     O. C., VI v., 1952, p. 81.




38
  NO TMULO DE CHRISTIAN
       ROSENCREUTZ
No tnhamos ainda visto o cadver do nosso Pai prudente e
sbio. Por isso afastamos para um lado o atar. Ento pudemos
levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo
corpo clebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mo um pequeno
livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que , depois da
Bblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente subme-
tido  censura do mundo.


                                  fama Fraternitatis Rosas Crucis


                                 I

 Quando, despertos deste sono, a vida,
 Soubermos o que somos, e o que foi
 Essa queda at Corpo, essa descida
 At  Noite que nos a Alma obstrui,

 Conheceremos pois toda a escondida
 Verdade do que  tudo que h ou flui?
 No: nem na Alma livre  conhecida...
 Nem Deus, que nos criou, em Si a inclue.

 Deus  o Homem de outro Deus maior.
 Adam Supremo, tambm teve Queda;
 Tambm, como foi nosso Criador,

 Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
 De alm o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
 Aqum no a h no Mundo, Corpo Seu.

                                                                       39
                        II

     Mas antes era o Verbo, aqui perdido
     Quando a Infinita Luz, j apagada,
     Do Caos, cho do Ser, foi levantada
     Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

     Mas se a Alma sente a sua forma errada,
     Em si, que  Sombra, v enfim luzido
     O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
     Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

     Ento, senhores do limiar dos Cus,
     Podemos ir buscar alm de Deus
     O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

     No s de aqui, mas j de ns, despertos,
     No sangue atual de Cristo enfim libertos
     Do a Deus que morre a gerao do Mundo.

                       III

     Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
     Dormimos o que somos, e a verdade,
     Inda que enfim em sonhos a vejamos,
     Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

     Sombras buscando corpos, se os achamos
     Como sentir a sua realidade?
     Com mos de sombra, Sombras, que tocamos?
     Nosso toque  ausncia e vacuidade.

     Quem desta Alma fechada nos liberta?
     Sem ver, ouvimos para alm da sala

40
Calmo na falsa morte a ns exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rsea-cruz conhece e cala.

Antologia de Fernando Pessoa,
1 o v., Confluncia, 1942, p. 80.
                              8(




                                       41
     Neste mundo em que esquecemos
     Somos sombras de quem somos,
     E os gestos reais que temos
     No outro em que, almas, vivemos,
     So aqui esgares e assomos.

                     Tudo  noturno e confuso
                     No que entre ns aqui h.
                     Projees, fumo difuso
                     Do lume que brilha ocluso
                     Ao olhar que a vida d.

     Mas um ou outro, um momento,
     Olhando bem, pode ver
     Na sombra e seu movimento
     Qual no outro mundo  o intento
     Do gesto que o faz viver.

                     E ento encontra o sentido
                     Do que aqui est a esgarar,
                     E volve ao seu corpo ido,
                     Imaginado e entendido,
                     A intuio de um olhar.

     Sombra do corpo saudosa,
     Mentira que sente o lao
     Que a liga  maravilhosa
     Verdade que a lana, ansiosa,
     No cho do tempo e do espao.
                                                   9-5-1934
     O. C., I v., Poesias, p. 197.



42
    O LTIMO SORTILGIO
J repeti o antigo encantamento,
E a grande Deusa aos olhos se negou.
J repeti, nas pausas do amplo vento,
As oraes cuja alma  um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o cu mostrou.
S o vento volta onde estou toda e s,
E tudo dorme no confuso mundo.

Outrora meu condo fadava as saras
E a minha evocao do solo erguia
Presenas concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via,
E as folhas da floresta eram lustrosas.

Minha varinha, com que da vontade
Falava s existncias essenciais,
J no conhece a minha realidade.
J, se o crculo trao, no h nada.
Murmura o vento alheio extintos ais,
E ao luar que sobe alm dos matagais
No sou mais do que os bosques ou a estrada.

J me falece o dom com que me amavam.
J me no torno a forma e o fim da vida
A quantos que, buscando-os, me buscavam.
J, praia, o mar dos braos no me inunda.
Nem j me vejo ao sol saudado erguida,

                                               43
     Ou, em xtase mgico perdida,
     Ao luar,  boca da caverna funda.

     J as sacras potncias infernais,
     Que, dormentes sem deuses nem destino,
     A substncia das coisas so iguais,
     No ouvem minha voz ou os nomes seus.
     A msica partiu-se do meu hino.
     J meu furor astral no  divino
     Nem meu corpo pensado  j um deus.

     E as longnquas deidades do atro poo,
     Que tantas vezes, plida, evoquei
     Com a raiva de amar em alvoroo,
     Inevocadas hoje ante mim esto.
     Como, sem que as amasse, eu as chamei,
     Agora, que no amo, as tenho, e sei
     Que meu vendido ser consumiro.

     Tu, porm, Sol, cujo ouro me foi presa,
     Tu, Lua, cuja prata converti,
     Se j no podeis dar-me essa beleza
     Que tantas vezes tive por querer,
     Aos menos meu ser findo dividi --
     Meu ser essencial se perca em si.
     S meu corpo sem mim fique alma e ser!

     Converta-me a minha ltima magia
     Numa esttua de mim em corpo vivo!
     Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
     Annima presena que se beija,
     Carne do meu abstrato amor cativo,
     Seja a morte de mim em que revivo;
     E tal qual fui, no sendo nada, eu seja!

     Presena, n" 29, Dez., 1930.

44
               GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro bao.
Seus trs anis irreversveis so
A desgraa, a tristeza, a solido.
Oito luas fatais fitam no espao.

Este, poeta, Apoio em seu regao
A Saturno entregou. A plmbea mo
Lhe ergueu ao alto o aflito corao,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.

Inteis oito luas da loucura
Quando a cintura trplice denota
Solido e desgraa e amargura!

Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestgios de maligna formosura:
E a lua, alm de Deus, lgida e ignota.

Cancioneiro, Maio, 1930.




                                          45
                   O ENCOBERTO
     Que smbolo fecundo
     Vem na aurora ansiosa?
     Na Cruz Morta do Mundo
     A Vida, que  a Rosa.

                  Que smbolo divino
                  Traz o dia j visto?
                  Na Cruz, que  o Destino,
                  A Rosa, que  o Cristo.

     Que smbolo final
     Mostra o sol j disperto?
     Na Cruz morta e fatal
     A Rosa do Encoberto.

                                       21-2-1933
                                       11-2-1934

     Mensagem, 1a ed., 1934, p. 80.




46
        "SOMBRA AMADA"
Longe da fama e das espadas,
Alheio s turbas ele dorme.
Em torno h claustros ou arcadas?
          S a noite enorme.

Porque para ele, j virado
Para o lado onde est s Deus,
So mais que Sombra, e que Passado
          A terra e os cus.

Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistrio e a sua lei.
A vida f-lo heri, e a Morte
           O sagrou Rei!

No oculto para o nosso olhar,
No visvel  nossa alma,
Inda sorri com o antigo ar
          De fora calma.

E amanh, quando queira a Sorte,
Quando findar a expiao,
Ressurrecto da falsa morte,
          Ele j no.

Mas a nsia nossa que encarnara,
A alma de ns de que foi brao,
Tornar, nova forma clara,
         Ao tempo e ao espao.

                                     47
     Ah, tenhamos mais f que a esp'rana!
     Mais vivo que ns somos, fita
     Do Abismo onde no h mudana
              A terra aflita.

     E se assim ; se, desde o Assombro
     Aonde a Morte as vidas leva,
     V, esta ptria, escombro a escombro,
               Cair na treva;

     Se algum poder do que tivera
     Sua alma, que no vemos, tem,
     De longe ou perto -- porque espera?
               Porque no vem?

     Em nova forma ou novo alento,
     Que alheio pulso ou alma tome,
     Regresse como um pensamento,
              Alma de um nome.

     Regresse sem que a gente o veja,
     Regresse s que a gente o sinta --
     Impulso, luz, viso que reja,
               E a alma pressinta!

     Que nova luz vir raiar
     Da noite em que jazemos vis?
      sombra amada, vem tornar
              A nsia feliz.

     Quem quer que sejas, l no abismo
     Onde a morte a vida conduz,
     S para ns um misticismo
              A vaga luz
48
Com que a noite erma inda vazia
No frio alvor da antemanh
Sente, da espr'anca que h no dia,
          Que no  v.

E amanh, quando houver a Hora,
Sendo Deus pago, Deus dir
Nova palavra redentora
         Ao mal que h,

E um novo verbo ocidental
Encarnado em herosmo e glria,
Traga por seu broquel real
          Tua memria!

                                             27-2-1920

Fragmentos do Poema
"A Memria do Presidente-Rei Sidnio Pais"
Ao, n 4, 1920.




                                                         49
                           A MORTE
     A morte  a curva da estrada.
     Morrer  s no ser visto.
     Se escuto, eu te oio a passada
     Existir como eu existo.

                    A terra  feita de cu.
                    A mentira no tem ninho.
                    Nunca ningum se perdeu.
                    Tudo  verdade e caminho.

                                        23-5-1932

     O. C., I, V, Poesias, p. 144.




50
                      DEMOGORGON
Na rua cheia de sol vago h casas paradas e gente que anda.
Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.
Pressinto um acontecimento do lado de l das frontarias
                        e dos movimentos.

            No, no, isso no!
Tudo menos saber o que  o Mistrio!
Superfcie do Universo,  Plpebras Descidas,
            No vos ergais nunca!
O olhar da Verdade Final no deve poder suportar-se!

Deixai-me viver sem saber nada, e morrer sem ir saber nada!
A razo de haver ser, a razo de haver seres, de haver tudo,
Deve trazer uma loucura maior que os espaos
           Entre as almas e entre as estrelas.

No, no, a verdade no! Deixai-me estas casas e esta gente;
Assim mesmo, sem mais nada, estas casas e esta gente...
Que abafo horrvel e frio me toca em olhos fechados?
No os quero abrir de viver!  Verdade, esquece-te de mim!

                                          lvaro de Campos

       O. C., II v., p. 262.




                                                         51
                 HINO A PA
                              De Mestre Therion
                              (Aleister Crowley)

     Vibra do cio sutil da luz,
         Meu homem e af!
     Vem turbulento da noite a flux
         De P! I P!
     I P! I P! Do mar de alm
     Vem da Siclia e da Arcdia vem!
     Vem com Baco, com fauno e fera
     E ninfa e stiro  tua beira,
     Num asno lcteo, do mar sem fim,
         A mim, a mim!
     Vem com Apoio, nupcial na brisa
         (Pegureira e pitonisa),
     Vem com Artmis, leve e estranha,
     E a coxa branca, Deus lindo, banha
     Ao luar do bosque, em marmreo monte,
     Manh malhada da mbrea fonte!
     Mergulha o roxo da prece ardente
     No dito rubro, no lao quente,
     A alma que aterra em olhos de azul
     O ver errar teu capricho exul
     No bosque enredo, nos ns que espalma
     A rvore viva que  esprito e alma

     E corpo e mente -- do mar sem fim
         (La P! I P!),
     Diabo ou deus, vem a mim, a mim!

52
     Meu homem e af!
Vem com trombeta estridente e fina
     Pela colina!
Vem com tambor a rufar  beira
     Da primavera!
 Com frautas e avenas vem sem conto!
     No estou eu pronto?
Eu, que espero e me esforo e luto
Com ar sem ramos onde no nutro
Meu corpo, lasso do abrao em vo,
  Aspire aguda, forte leo --
     Vem, est vazia
     Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
A espada corta o que ata e di,
O' Tudo-Cria, Tudo-Destri!
D-me o sinal do Olho Aberto,
E de coxa spera o toque ereto,
E a palavra do Louco e do Secreto,
     O ' P! I P!
I P! I P P! P P! P!
Sou homem e af:
Faze o teu querer sem vontade v,

Deus grande! Meu P!
I P! I P! Despertei na dobra
     Do aperto da cobra.
A guia rasga com garra e fauce;
     Os deuses vo-se;
As feras vm. I P! A matado,
     Vou no corno levado
     Do Unicornado.
Sou P! I P! I P P! P!
Sou teu, teu homem e teu af,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
                                       53
     Carne em teu osso, flor na tua vara.
     Com patas de ao os rochedos roo
     De solstcio severo a equincio.
     E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
     Sempiterno, mundo sem termo,
     Homem, homnculo, mnade, af,
         Na fora de P.

     I    P! I P P! P! I P!

                                                     Traduo
                                               De Fernando Pessoa

     Presena, v., n.33, 1931.

      Poesia por Fernando Pessoa atribuda a Aleister Crowley e por ele traduzida
     e publicada no intuito de mostrar o que era um verdadeiro "poema mgico".




54
P      oucos escritores nacionais revelaram desde seus pri-
       meiros ensaios literrios preocupao e angstia
       to fundas perante o Mistrio do Alm, perante o
problema do Destino, a causa suprema da Vida, princ-
pio e fim do Universo, como Fernando Pessoa. . Afasta-
do das religies aceites, procurou os caminhos vedados
aos profanos em demanda da Verdadeira Luz e por isso o
vemos interessado na Astrologia, nas artes da Magia, cul-
tivando a um tempo as Cincias Ocultas, o Espiritismo
e a prpria Teosofia. Nenhuma das chaves de que o ho-
mem se apoderou para penetrar o Mistrio lhe escapou.
Aprofundou a Gnose. Conheceu os livros profticos.
Iniciou-se nos segredos da Kabala e da Maonaria
Inicitica. Seu pensamento profundamente imbudo da
simbologia e dos conceitos fundamentais do Ocultismo
encontra na poesia um meio de expresso a tal ponto
fiel que mesmo naqueles dos seus poemas em que outra
inspirao o move o Poeta usa duma linguagem oclusa,
ora intencionalmente nua de adornos, ora entrecortada
de profundidades abissais. . Pessoa fica assim situado
na Poesia moderna como um dos mais altos represen-
tantes dum gnero de poesia que propriamente em Por-
tugal teve incio em Gomes Leal, que, primeiro que nin-
gum, abriu com o seu sagrado instinto de Poeta, a m-
gica porta do Mistrio e da comunho csmica com os
Mundos Invisveis". . No  o misterioso que aparece
em Pe, no  o sombrio que avulta em Lecomte, no 

      *. Um dia que se estude com largueza esta corrente de inadaptados e vision-
rios, outros Poetas, sem mesmo falar de Antero, como Narcizo de Lacerda e
Guilherme Santa Rita, o prodigioso artista do Poema dum Morto, vero com
justia ressurretos seus carmes de Inspirados.


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 o satnico que se torna audvel com Baudelaire, no  o
sobrenatural que se surpreende em Hoffmann,  algo de
novo que vai procurar aos mistrios profundos da Vida
e s vozes ignoradas que erram no Invisvel os segredos
da Existncia e o caminho da Suprema Verdade, da fon-
te da Luz Eterna. . Os tempos correram; transita a ge-
rao que Hartmann dominou com a sua filosofia do
inconsciente, e o pensamento potico penetra em crcu-
los cada vez mais inatingveis  cultura profana. . Ven-
cendo a tendncia lrica que domina o estro nacional, a
cano eterna do amor e da ternura, demasiado comu-
nicativa e sensual para o seu esprito fechado e ultra
intelectualista, Pessoa traz, como se disse,  Literatura
Portuguesa a voz profunda do Oculto. E essa voz, atra-
vs das suas manifestaes mais expressivas, que aqui se
procura condensar, de guisa a dar aos adeptos deste g-
nero de poesia oportunidade de encontrar reunidos poe-
mas que atravs da disperso da sua obra potica per-
dem muito do seu significado, at mesmo porque nem
todos eles esto coligidos nas edio oficial dos seus ver-
sos. No quer isto dizer que seja completa a coletnea.
Sabemos que no , pois poemas to significativos como
Lcifer, por exemplo, ainda permanecem no limbo, e
sabe-se l at quando? Petrus.




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    Este livro POEMAS OCULTISTAS de Fernando Pes-
    soa  o volume de nmero 3 da Coleo de Autores
    Modernos da Literatura Luso-Brasileira. Impresso na
    Editora Grfica Lthera Maciel Ltda, a Rua Simo Ant-
    nio, 157, Contagem, para Livraria Garnier, a Rua So
    Geraldo, 53 - Belo Horizonte - MG. No Catlogo geral
    leva o nmero 3096/6B. ISBN 85-7175-096-3.




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        POEMAS
       OCULTISTAS

       "Tenho pensamentos que, se
 pudesse revel-los e faz-los viver,
acrescentariam nova luminosidade
s estrelas, nova beleza ao mundo e
       maior amor ao corao
              dos homens."

                   Fernando Pessoa




     Fernando Pessoa, nascido em
Lisboa no dia 13 de junho de
 1888, falecido em 1935.
     A ltima frase de Fernando
Pessoa escrita no dia de sua morte:
"Eu no sei o que o amanh trar".
     O amanh trouxe para
Fernando Pessoa uma admirao
crescente. Suas obras foram aos
poucos sendo editadas e ele  hoje
considerado, ao lado de Cames,
um dos maiores poetas portugueses
de todos os tempos. Nenhum poe-
ta, em lngua portuguesa, obteve tan-
to prestgio em todo o mundo.
     Morreu quase completamen-
te ignorado pelo grande pblico,
pouco compreendido  poca pelo
leitor comum por ter renunciado 
proposta naturalista-amorosa que
orientava a potica de ento.
    Seu pensamento profunda-
mente imbudo da simbologia e dos
conceitos fundamentais do Ocul-
tismo encontra na poesia um meio
de expresso a tal ponto fiel que
mesmo naqueles dos seus poemas
em que outra inspirao o move o
Poeta usa de uma linguagem
oclusa, ora intencionalmente nua
de adornos, ora entrecortada de
profundidades abissais.
    Vencendo a tendncia lrica
que domina a poesia nacional, a
cano eterna do amor e da ter-
nura, demasiado comunicativa e
sensual para o seu esprito fecha-
do e ultra-intelectualista. Pessoa traz,
como se disse,  Literatura Por-
tuguesa a voz profunda do Oculto.
      essa voz, atravs de suas
manifestaes mais expressivas,
que aqui se procura condensar, de
modo a dar aos adeptos deste
gnero de poesia oportunidade de
encontrar reunidos, poemas que
atravs da disperso de sua obra
potica perdem muito do seu sig-
nificado.
